sábado, 3 de abril de 2010

17:55 4


“O poeta é fingidor e finge tão completamente que é dor a dor que deverás sente.” F. Pessoa

Tiroteio. Sinto-me no meio de um tiroteio. Mas como sou surdo, apenas tenho ciência do perigo que meu ‘eu’ futuro corre, sem viver, propriamente, o pandemônio que me (nos) cerca. Repto, os atiradores são como o Deus teórico: onipotente, onisciente e, infelizmente, onipresente. Paranóia? Sei lá. Mas sei que estão me matando, todos os tiros tangenciam meu corpo. Alguns chamam isso de Tempo, outros de Destino – outros, ainda, desconhecem esse processo e são, verdadeiramente, felizes por não existirem. “Penso, logo existo”. Melhor: “penso, logo desisto” como alguém parodiou.

Mas isso tudo é balela. De ser infeliz por não ser burro. Coisa de quem tem problemas em se relacionar que levam a outros problemas que afastam as pessoas mais ainda. Problemas afastam pessoas – te unem a duas, afastam quinze¹. Coisa de quem se acha mais inteligente que a média por saber dos motivos de sua infelicidade. Pois então: felizes não sabem que são infelizes em suas vidinhas. Coisa de quem não suportaria pensar que outros descobriram o motivo de suas infelicidades e conseguiram superar isso, de maneira indutiva* e sem efeitos colaterais – enquanto se acha muito muito por ter deduções** que a convence.
Sei que tenho um problema. Um não, dois. O segundo problema é não saber (ou, inconscientemente, não querer saber) qual é o primeiro.

¹: Fui pra felicidade quando uma pessoa estava com problemas e não me aproximei. Hoje estou infeliz e não sei como ela está. Dizem que pessoas passam, mas não passam. Vão embora, mas não passam.

* Indução: Método de obtenção de conhecimento no qual, ao observar os efeitos chega-se à causa. Permite, em laboratórios, estimular as causas para verificar se surtem tais efeitos.

** Dedução: A partir de premissas tidas como verdadeiras a obtenção de uma conclusão
necessária e evidente. Método de ciências não experimentais, com as sociais.


Publicações nesse meio tempo:

Revista Samizdat - revista eletrônica
SunShine - edição Outono
Estórias gozadas - Conto: Cooper Feito

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Créditos da imegem
the view from the afternoon, por Yéssica Klein Mori

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4 comentários:

  1. Texto profundo, gostei.
    Aproveito para agradecer a mensagem que vc me deixou.
    Feliz Páscoa!

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  2. Você já começou o texto acertando em cheio colocando Fernando Pessoa... mestre. ;)

    "Sei que tenho um problema. Um não, dois. O segundo problema é não saber (ou, inconscientemente, não querer saber) qual é o primeiro."
    Esse trecho foi o que eu mais gostei... pra ser sincera, adorei o texto inteiro.

    "Felizes não sabem que são infelizes em suas vidinhas."

    Beijinhos.
    Passarei sempre por aqui.

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  3. "Sei que tenho um problema. Um não, dois. O segundo problema é não saber (ou, inconscientemente, não querer saber) qual é o primeiro."
    perfeito, não?
    Post de grande personalidade. amei.
    beijo

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  4. Uau, que texto interessante!
    Gosteeei.

    =*

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