domingo, 31 de maio de 2009

16:58 7


ENCONTRO. 4

Partimos. A casa ficava a algumas quadras dali. A nossa disposição foi naturalmente arranjada, acho. Ela ficou no meu, a amiga tomou a direita, restando para eu a esquerda. Predestinação ou aleatoriedade? Não sei. Sou um cara ateu, mais supersticioso, mas não com essas superstições de senso-comum, que envolvem gato-preto e escada. Crio as minhas observando os fatos, as ações e as reações, superstições embasadas cientificamente. E ficar à esquerda não me pareceu boa sorte. Na Última Ceia de Da Vinci, Judas estava à direita de Cristo, sim, mas em todos os retratos da reunião que vieram depois, ele está à esquerda com seu saquinho de moedas. Não sou conhecedor de outras teorias (se é que essa é uma) sobre semiótica, mas a esquerda, definitivamente, não é um bom presságio em nossa cultura.

São tantos os devaneios… sonhamos e às vezes tão intensamente que, ante á possível, ou antes, à inevitável realização deles, sentimos medo, medo da eminente alegria. Suscita a consciência do perigo da felicidade. De não conseguir cunhar o ouro do pote encontrado atrás do arco-íris. Medo de despertar o Dragão do Querer e não saciá-lo as vontades. Mas, sobretudo, medo de sermos repetitivos, não reinventarmo-nos e não termos outros sonhos, novos sonhos. De chegar ao cume e ter de descer.

Como o caminho não merecia a introspecção à qual nos detínhamos, resolvi puxar assunto com a amiga, afinal, se tudo desse certo essa noite… “Você também faz música?” “faço sim” ela respondeu, sem me olhar. “Deve ser um curso que enriquece muito. Culturalmente…” “mais ou menos… a faculdade atrapalha os nossos estudos...”. Uso de jargão, ponto negativo. “É mesmo”, concordei e inclinei meu corpo tentando olhá-la, para que ela pudesse ver meu sorriso… Continuei: “Hoje pela manhã escutei música clássica e me lembrei de você, coloquei Paul Muriat…” “Existem lendas em pedagogia?”, ela me interrompeu. “Lendas?” “é, lendas, tipo… termos que o senso-comum se utiliza inapropriadamente?… falácias”. Olhei para amiga e essa matinha um meio sorriso no rosto e olhava para baixo como que prevendo o discurso, e como eu mantinha uma cara de interrogação, ela prosseguiu com o raciocínio. “Por que música clássica foi feita no período clássico, com padrões estéticos clássicos… Mozart não é clássico por ter sido muito bom, ou tocar música instrumental (sinfônica, no caso), mas por ter produzido no estilo da época, ter preocupação em expressar suas emoções de uma maneira refinada e educada. Bach era barroco e assim por diante. Beethoven romântico, por exemplo.” Ainda estava bem atordoado e reinou um certo silêncio. “Ah, então segue mais ou menos o mesmo padrão da literatura, por exemplo?” “Isso…” e sorriu. Enfim algo de inteligente a se dizer. Estava atordoado não pela quebra do conceito sobre história da música; mas principalmente pelo conceito que tinha eu formado sobre ela. Já estava com seu mapa-astral em mente e, como gato, brincando com o rato. Mas me provou ter sua estrutura, sim; ter personalidade esférica e não plana. Tinha-lhe por ponte, mas era uma gruta, e quando meu entendimento chegou à essa entrada fiquei feliz, sorri ante o novo desafio.

Caminhávamos calados novamente. Ela ainda mantinha um meio sorriso no rosto, vitorioso e satisfeito, desses que imprime na face pensamentos não tão inocentes, não. Bem sei. A pretexto de frio, deu os braços à amiga, encolheram e se apertaram. Olhou-me, e eu, que tinha trocado ao sorriso pela dúvida, tive meu braço envolvido e apertado pelo dela. Virei o rosto e senti o cheiro do seu cabelo e do pescoço. Não usava perfume. Acho muito piegas descrever o que esse tipo de incentivo instiga, mas as partículas voláteis que seu corpo emanava tomaram de tal forma meu órgão olfativo, que a percepção deles manifestou sensações tão diversas que fui derrotado, suspirei para retomar o ar que não viera na respiração anterior, e desejei acordar todos os dias sentindo-o.

Conversavam. Falavam sobre a maior dificuldade de se fazer graduação musical especialidade em piano, que era necessariamente possuir um piano. Mas faziam planos de comprá-lo em sociedade. Compartilhar um piano, é compartilhar a vida, pensei.

“Por que você está sorrindo assim?” “Por nada não… acabamos de chegar em casa”. Abri o portão. “Vocês não tem cachorro nessa casa grande?”, perguntou a amiga. “Temos, mas ela é muito boba e não late para visitas.” “Por que Limbo?” “e porque a frase: deixai toda a esperança, ó vós que entrais.”. Elas perguntaram ao lerem os escritos nas paredes do alpendre. “É porque a república se chama ‘Dantesca’, em alusão ao Inferno de Dante. Daí os fundadores colocaram cada cômodo da casa como sendo um dos círculos infernais, aqui é o limbo por que ele não faz propriamente parte do inferno…” Entramos na casa. “A sala é o segundo, onde os luxuriosos sofriam com ventos vulcânicos”. “Nossa, que criativos… e tem uma janela grande aqui… e com o calor que faz nessa cidade…” “pois é, e aqui é o lugar da luxuria, da descontração… a cozinha, venham cá, é o terceiro, onde os glutões ficavam expostos à chuva ácida” Pego o vinho na geladeira e abro, nos sentamos à mesa. Copos americanos. A conversa se desenvolve despretensiosamente. A mistura vinho e cerveja começa a fazer o esperado efeito.

Chamei para nos acomodarmos no recinto da luxuria, sorrindo devido ao vinho e à eminência do grande feito. Coloquei o DVD enquanto elas se arrumavam no colchão de casal que estava no chão e esticavam o cobertor. Ela ficou no meio e a amiga na direita novamente. Deitei olhando-a e sorrindo, ela já estava alegre, mas irradiou-se. Começou o filme.

Filmes do Godard instigam a foder, e são para se ver depois de foder, para dar vontade de foder mais. Vê-los sozinho entristece o que, por definição, já é triste. Dão vontade de foder por que dão vontade de viver, e viver é sentir, acho. E sentir é diferente de ter sentimento: o sentimento é uma força, um substantivo que remete sempre a um objeto… se já o sentir é o movimento a que essa força impele, a ação. O sentimento apenas, sem sentir, sem a ação, represado, leva, possivelmente, á loucura.

Pediram mais vinho, que foi prontamente atendido, pois a garrafa estava do meu lado. Quando o casal, depois de um denso diálogo no bar, foi jogar fliperama, por debaixo do cobertor passei a mão na perna dela, protegida pelo jeans. Apertei (o máximo que poderia me acontecer era ela mandar tirar a mão dali, ou afastar o corpo; calculei), mas com o pé, roçou o meu e ficamos assim. Satisfeito de ter apertado sua perda, fui subir para a barriga e possivelmente descer por dentro da calça, mas encontrei ai a mão da amiga, que apertou a minha e entrelaçamos os dedos. Ela já estava de olhos fechados e um pouco ofegante. Desatei meus dedos dos da amiga e procurei os pelos pubianos, mas o Monte de Vênus estava liso. Beijei o ombro dela, depois o pescoço e elas já estavam se beijando.

O que se passou depois, contarei sucintamente, pois foi apenas o xeque-mate. Como no jogo de xadrez, o final é o menos passível de explicações e táticas: um rei, uma dama e uma torre facilmente derrotam o rei oposto solitário (metaforicamente, o esse rei era o pudor ou algo que o valha). Restam, então, três peças.
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Agora, aqui na varanda fumando o cigarro da amiga penso única e exclusivamente em me casar com as duas. A casa teria de ter três quartos (um álibi para a poligamia), daí seria muito bom se as duas engravidassem ao mesmo tempo… A vida a três seria perfeita, elas são melhores amigas, e um homem ligado a somente uma delas enfraqueceria esse elo. Também no casamento, o difícil para o homem é ser ‘amiga’ da mulher e se portar, às vezes, como tal. Enquanto eu assistiria futebol, ou faria minhas pesquisas acadêmicas, elas brincariam, daí eu chegaria e completaríamos a festa. O principio moral de monogamia deve ter sido advogados e implementado pelos fracos que viam grupos de fêmeas defendidos por poucos machos destemidos.

Matei o cigarro e estava duro novamente. Entrei no quarto e fechei a porta da varanda, pois as meninas estavam descobertas. Ela dormia na minha cama e amiga num colchão no chão. Subi na cama a abri as pernas dela, que dormia de barriga para cima e apenas de camisa. Umedeci meus dedos de saliva e lubrifiquei o local da invaginação, onde me introduzi. Olhava-a atentamente, não queria perder o momento exato de vê-la acordar. Seu despertar começou com tremulação das pálpebras e depois dos músculos da região ocular. Eu já fazia um leve movimento pendular com meu corpo. Logo ela suspirou e depois relaxou, um sorriso reluziu e o lábio inferior foi mordido. O abdômen contraído, o lençol apertado. Intensifiquei o movimento. Ainda de olhos fechados, sua mão procurou o meu rosto e beijei-lhe a palma; depois segurou o meu pescoço como se tivesse empunhando uma espada e o polegar roçava o pomo-de-adão. Abriu os olhos, sorriu e gemeu.

“E ela?” perguntou, sussurrando. “Está no colchão”. “Vamos acordá-la assim também…” De fato se amam, são eternamente responsáveis uma pela outra. Desmontamo-nos e fomos para o chão. Ela abriu as pernas na amiga e colocou a cabeça entre elas para despertá-la, se pondo de quatro. Lubrifiquei-a novamente e entrei. A amiga acendeu com um sorriso, que se seguiu de uma expressão severa, e sorriso novamente. Colocou a mão na cabeça de sua benfazeja e massageou seus cabelos. Eu cumpria com os movimentos pendular.

O dia começou como terminou.

Penso em me casar, ter filhos e um emprego. Uma vida normal, enfim. Nessa vaga procura por quem seremos, defrontamos o espelho, olhos nos olhos, e vemos quem está lá dentro e este também nos olha, desvendando, sempre, as faces ocultas pelas máscaras. O espelho mostra-nos quem de fato somos (um medo do futuro), quem não somos (este que veste ternos ou usa colares) e remete a quem gostaríamos de ser. Este é o monstro que libertei e que irá me devorar.

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7 comentários:

  1. Volupia...
    otima "coletanea"
    =DD
    posta mais contos
    paz e luz

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  2. Muito bom o desfecho, mas me desapaixonei. Você foi bem sutil ao descrever o momento a trois dos personagens.
    Agora, acho que ele não ia achar muito bom que as duas engravidassem ao mesmo tempo... rs. Seria como pedir para as duas terem tpm na mesma época. Ainda bem que é um conto! hehehehehe
    Bjo querido!

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  3. No geral, exageradamente prolixo o conto. Mas com coisas boas também, e algumas verdades, como a parte em que se diz que o sentimento, sem sentir, pode levar à loucura. Sou cobaia desse processo.

    Continue escrevendo. Siga.

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  4. Destaque para a parte do sentimento sem sentir e para as sensações que esse conto pode provocar as 5h da manhã de uma noite não dormida. E ah, leia "O Caso Morel", do Rubem Fonseca.
    Passei por aqui :)

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  5. Caramba!!! Realmente gostei desses contos.

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  6. "Filmes do Godard instigam a foder, e são para se ver depois de foder, para dar vontade de foder mais. Vê-los sozinho entristece o que, por definição, já é triste. Dão vontade de foder por que dão vontade de viver, e viver é sentir, acho. E sentir é diferente de ter sentimento: o sentimento é uma força, um substantivo que remete sempre a um objeto… se já o sentir é o movimento a que essa força impele, a ação. O sentimento apenas, sem sentir, sem a ação, represado, leva, possivelmente, á loucura."



    IMPAGÁVEL!

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  7. eu me culpo até hj por ter perdido o celular de duas lesbo que eu beijei em um show....mas é a vida, né...

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