Musica incidental:
Vinicius e Toquinho: Se ele quisesse (1975) do albúm: Vinicius & Toquinho (1975)
Ah, se eu tivesse...
ENCONTRO. 2
Não sou cientista, Deus me livre. Mas coisa sábia desses filósofos foi promover a utilização de métodos, de índices, que aplicamos mesmo sem saber. A dedução só perde para o fogo e para a roda na história da humanidade. Empata com a pólvora, uma justifica e outra operacionaliza os conflitos modernos, que são os alicerces da economia desde muito tempo.
Gosto de analisar as pessoas através de índices, da semiótica. Falarei pouco sobre ela até agora, tentarei esboçar um ensaio sobre minhas impressões pré-contato, sobre meus pré-conceitos. Partirei do geral para o particular, sendo este último apenas um esboço, apenas.
Ela é branca, dessas brancas que não estão acostumas com o sol. Nem magra nem gorda, faz o tipo gostosa mesmo, mas não parece trabalhar o fator corpo, poucas vezes a vi com blusinhas em que seu colo e alto-ventre se mostrasse. Faz o tipo italianinha, seus cabelos são de um louro escuro, miscigenado, e suas sobrancelhas também, daí conclui-se que não tem o hábito de pintar os cabelos, fato, aliás, que me admira. Gosto das pessoas naturalmente.
Veste-se mais para o estilo hippie: de uma escala de zero a dez, sendo o zero ‘patricinha’ e o dez hippie, daria um 7,5 para ela. Instigam-me essas mocinhas meio hippies, mas não é nada ideológico de minha parte não, é que isso é um sintoma de que há algo de contestador, fora do padrão de estilo da classe-média, e é exatamente essa desvirtuação que indica que elas podem acabar com caras como eu (acabar na cama, digo). Seus óculos de armação cor ferrugem também me deixaram instigado, como que perante uma alquimista que iria transformar-me a matéria como bem quisesse: todos os sentimentos do mundo estavam em suas mãos e poderia a qualquer momento me utilizar de frasco para misturá-los.
Outro índice que acho fundamental nas mulheres são as unhas, elas dizem muito. Talvez devido a alguns filmes que assisto, unhas médias, de extremidade quadrada ( não arredondada) e bem feitas sempre se associam à sexo oral, unhas sujas falta de higiene, quebradas a desleixo ou a falta de nutrição e assim por diante. Conheci uma mulher-jovem que deixa curta apenas a unha do dedo-médio, a finalidade que atribuía a isso me enchia de pensamentos ananistas. Mas as dela são curtas, redondinhas, e nunca as vi com esmalte, somente aquela substância que as deixam reluzentes. Outro fator que me atraiu. Mas em sua mão, chamou-me a atenção o fato de usar um anel prateado e espesso no dedo indicador. Escutei em algum lugar, ou li, que esse era um código de reconhecimento entre homossexuais femininas. Não sei o quanto disso é verdade, tão pouco se ela sabe. Acho que isso me perturbou um pouco, pois tenho a impressão de tê-la visto algumas vezes observando outras meninas... pode ser que estava com olhar vago, pensativo, ou fantasiando.
Dada uma esmiuçada na moça, cabe agora contar o que aconteceu naquele inicio de noite, ou que poderia ter acontecido.
Telefonei para dois amigos, saber de festas. Eles me falaram de ir à boate, retruquei que não estava com pique. Perguntei sobre festas universitárias, no máximo algum show. Citaram o Hard Day´s Night, boa pedida, pois ali se apresentavam bandas de rock ou Reggae, era barato para entrar e vendiam cerveja de garrafa. Eles toparam de ir lá, ficaram de passar em casa às dez. Agora tinha que chamar as meninas, o bom de ter amiga é esse: dá-te margem para convidar outras mulheres para sair sem parecer um canastrão (além do sexo casual, é claro). Mas nenhuma delas quis ir, deram desculpas.
Como não tinha nenhuma festa da faculdade, e nem outras mulheres para nos acompanhar, resolvi desistir da empreitada. Liguei para os caras falando que apareceu um imprevisto: uma gatinha querendo ver um filme em casa. Esse era um motivo de força maior, reconheceram.
Conhecia-me o bastante para saber que efetivamente só sairia com ela essa noite se desse tudo certo, se o acaso assim alinhasse. Se fosse um homem objetivo, um caçador de olhos próximos que funcionassem como uma mira de precisão teria convidado-a para um encontro a dois, em casa mesmo talvez, ou nalgum bar próximo. Mas joguei a moeda, quis contar com uma série de fatores, como que pedindo a benção da sorte. Agora é traçar um plano antes de ligar para ela, tenho que vê-la hoje, senão retrocederei alguns passos. É mais ou menos como um guepardo, uma vez lançada a investida não se pode voltar atrás, com a energia que esses animais gastam durante o ataque, um erro na escolha do alvo pode custar não só uma refeição, mas ser fatal. O roteiro: Primeiro falar que a turma desanimou de ir. Depois falar que vou ficar em casa mesmo. Citar que sairei para comer um lanche, talvez tomar uma cerveja no bar do Macaco (aquele mesmo bar que a encontrei tomando cerveja), dependendo de a reação convidar para ir também. Por último falar que verei um filme em casa mesmo, se ela interessar-se, convidar para vir ver.
Esboçado o plano, liguei: “Oi, tudo bem? sou eu...”. “Oi! todo bom”. “Então, o pessoal que ia sair hoje furou, as meninas se esconderam e os caras vão a uma boate. Daí desencanei”. “Que pena... ah... mas não faz mal, deixa para outro dia”. “Pois é, estou pensando em ir no Macaco mesmo, comer um lanche, tomar uma cervejinha...”. “...”. “Ficar mais sossegado... depois voltar para casa e ver um filminho...”. “Hum... e que filme vai assistir?”. “Então, não sei ainda. Tenho alguns aqui em casa, no computador, baixo na faculdade e trago, depois gravo em DVD e assisto. Você quer vir ver, daí a gente escolhe junto?”. “Vontade não me falta. Onde você mora?”. “Moro na rua do Macaco, só que na parte alta”. “Então, eu moro na baixa... nah, deixa para outro dia, um sábado ou domingo...”. “Você tem aula amanhã cedo? por que aqui na Rep. tenho colchão, posso dormir nele e você na minha cama...”. “... não tenho aula amanha cedo... hum... até pode ser... não ia fazer nada hoje mesmo”. “Fechou então: a gente se encontra lá no Macaco às dez, daí subimos aqui para casa”. “Beleza, combinado... hum... posso levar uma amiga?”. “Claro, sem problemas!”. “Beleza então, beijão”. “Até daqui a pouco”.
Agora eu conhecia, enfim, os sentimentos: dos gregos quando tomaram Tróia; dos portugueses no então Cabo Das Tormentas; de Napoleão em Roma, dos soviéticos em Berlim. Minha consciência ficou algum tempo plenamente satisfeita, enfim. Daqueles instantes que sucederam o telefonema em diante estava transpirando contentamento. Não sabia, então, do monstro que estava alimentando dentro de mim, e nem do estrago que ira causar quando sua fome se tornasse impossível de ser saciada. Iria devorar-nos (a mim e aos outros eu que me coabitam).
A perguntar que não me deixava: ela quer dar ou não? A leitura dos sinais dela tinha que ser precisa para não haver excesso de força (que soaria como um: ou dá ou desce), tampouco fraqueza em demasia, coisa que acaba com qualquer homem. Tinha que ser uma sintonia fina entre os incentivos dela e minhas respostas, para convergirmos ao equilíbrio, ao entendimento. Um conceito importante nessas horas é o de ‘armadinha da amizade’ na arte de seduzir: tentando persuadir a mulher com estórias e vantagens, corremos o risco exceder no ponto ótimo de aproximação que maximiza o interesse delas (tesão), e nos tornarmos amigos, daí o todo esforço é dissipado, toda a luta é vã. Então é partir para o menos pior, tentar salvar algo pedindo-as para apresentarem as amigas.
O fato de ela querer trazer uma amiga pesava contra mim. É mais fácil ela estar querendo se livrar de um encontro a dois do que planejando uma suruba, mas há a chance. Subitamente lembro-me do seu anel no dedo indicador.
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in A PERSONAGEM DE FICÇÃO, texto LITERATURA E PERSONAGEM, de Anatol Rosenfeld
A obra literária ficcional:
1) o problema ontológico*
...
“Na obra de ficção, o raio da intenção detém-se nesses seres puramente intencionais, somente se referindo de modo indireto – e isso nem em todos os casos – a qualquer tipo de realidade extraliterária.”
...
*Ontologia (fonte: dicionário Houaiss)
substantivo feminino
1 Rubrica: filosofia.
segundo o aristotelismo, parte da filosofia que tem por objeto o estudo das propriedades mais gerais do ser, apartada da infinidade de determinações que, ao qualificá-lo particularmente, ocultam sua natureza plena e integral; metafísica ontológica.
2 Rubrica: filosofia.
no heideggerianismo, reflexão a respeito do sentido abrangente do ser, como aquilo que torna possível as múltiplas existências [Opõe-se à tradição metafísica que, em sua orientação teológica, teria transformado o ser em geral num mero ente com atributos divinos.]
domingo, 17 de maio de 2009
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O autor
seus textos são tão grandes que não tenho paciência para tanto. tenterei ler, pouco a pouco, para compreender o que quer dizer.
ResponderExcluir'Oo
Hum, esse negócio de chamar pra ver filme em casa é um convite ao sexo mesmo... hahahahaha
ResponderExcluirMaravilhoso Ciri. Só estou curiosa pra saber mesmo o que vai dar este encontro, afinal estou platonicamente apaixonada pelo personagem. Será que vou me desapaixonar? rs...
Bjo querido, parabéns pelo belo conto.
caralho mano, isso ta parecendo final de temporada de lost !
ResponderExcluirfazia tempo que não me ficava tão absorvido em um texto de blog ( blogs, sempre eles ) e vc me obrigou a acordar do nada, sem um fim do conto, o que me obriga a voltar, o que me obriga a te colocar nos links do meu blog empoeirado....
abraços, e ve se publica o desfecho logo...
Menino q angustia para saber o final dessa "novela"
ResponderExcluirhehehehehehehe
parabéns