terça-feira, 12 de maio de 2009

23:37 6
Devido ao estupor mental que o trabalho de conclusão de curso está me causando, postarei nessas próximas semanas (terças e quintas) os capítulos desse conto.

Outra que esse espaço estava ficando muito pessoal, fugindo do intuito inicial que era ser objetivo, e não essa subjetividade que venho mostrando. A obra pseudo-literária expõe pensamentos e sentimentos das personagens apenas, em nada sendo relacionada com o autor.

Alerto quanto ao tédio que esse conto poderá causar.



ENCONTRO. 1
Engraçado o quanto colaboramos com o acaso, o quanto colaboramos para que as coisas assim aconteçam (ou se pareçam). Ficam mais belas com o acaso, mais pitorescas. Passar por baixo de uma árvore, que serve de poleiro para os pombos do centro da cidade, é pedir para tomar uma bela cagada e botar a culpa no acaso, no azar ou na sorte, sei lá.

Bom, meu caso é que tenho uma paquerinha na biblioteca da faculdade, trabalha na sala de informática, monitorando. Sempre sorrimos um para o outro, perguntamos se está tudo bom: os dois perguntam ao mesmo tempo, também respondemos juntos. Até ontem esses tinham sido nossos mais longos diálogos. Depois, sorrimos e abanamos a cabeça (eu a abaixo, e suponho que ela também abaixe), mas não sabemos nossos nomes, nem qual curso fazemos e tão pouco nossas utilidades para a sociedade.

Há algum tempo, encontrei-a num bar no bairro onde moro. Eu estava com um amigo vendo um jogo de futebol desses à noite, e ela acompanhada de amigos, quatro na verdade, e uma amiga. Ficamos ali algumas horas, mas nossa disposição não permitia troca de olhares; apenas pesquisa comportamental. Os homens de sua mesa não se interessaram por futebol, coisa que me deixa sinceramente preocupado: não que ponha em xeque a sexualidade deles, mas será que suas vidas têm tanto sentido assim a ponto de não acompanharem futebol? Nem quando iam ao banheiro espiavam a TV. Preocupante.

Mas fato é que nesse dia ela bebia cerveja. Outro ponto que mostra um pouco o que as pessoas têm embaixo de suas máscaras. Uma mulher que sai para beber com amigos em um bar freqüentado por defuntos telespectadores me agrada muito, pois não tem preocupações ambiciosas para ficar maquinando, não procura nada ali senão as pessoas que estão à sua volta. Tem a humildade, não é envaidecida etc. Isso me agradou bastante, aumentou meu fetiche por ela.

No dia em questão, no caso: ontem, fui usar a sala de informática, coincidentemente no turno dela. Chegando lá, olhei pela janela de vidro da porta, ela estava lendo numa mesinha e havia dois computadores vagos. Voltei pelo corredor e fui ao banheiro, depois bebi água. Retornei à sala e entrei, seguido de outro rapaz. Dessa vez havia apenas um computador vago e, como eu queria verificar em minha mochila se esquecera algo, deixei-o passar na minha frente. Nos cumprimentamos como de costume, sentei em um banco de espera, desses que cabem três pessoas, e quase entrei dentro da mochila à procura de algo, ou falta dele, à procura do fio da meada. A pergunta inicial seria o curso que ela fazia, na faculdade, tudo se iniciava ai. Ela ficou algum tempo olhando em minha direção, não para mim. Fato foi que percebi que sua leitura não era tão interessante assim, mas não consegui descobrir o assunto que se tratava, com rápidas e despretensiosas olhadelas.

Achei-o, enfim, dentro do caderno de fichamentos de filosofia-da-pedagogia. Já tinha o principio do assunto. O diálogo se passou mais ou menos assim:

“É... deixa eu perguntar, você faz psicologia?”. “Não... faço música”, ela respondeu, sorridente. Posto que eu só expressasse um: “Ah...”, ela prosseguiu: “Porque?” “Não, por que tô procurando um tal de Alexandre, o Pato, da psico, e não sei porque pensei que você fizesse psico, daí como ele é um dos poucos homens de lá, achei que poderia conhecê-lo, ainda mais por que ele é um dois poucos homens-homens de lá...” esbocei um risinho, que se expandiu ao ver que ela rira, embora a piada fosse, reconhecidamente, sem graça. Ela enfatizou, em meio ao riso, que não conhecia nenhum Pato e, como eu previra que assunto iria morrer quando nossas risadas já esfriassem, continuei – embora ache imensamente difícil falar e pensar ao mesmo tempo, gosto de repetir diálogos prontos o máximo que posso, assim somente tenho o trabalho de adequá-los à situação, e incrementá-los. Mas como o acaso me pusera naquela situação. “É que eu entrei em um grupo de estudo orientado por um professor da psico, e esse Pato também está lá, mas estou em dúvida sobre o artigo que será comentado na próxima reunião... só sei que é sobre ‘a identidade no mundo contemporâneo ou pós-moderno’, já li um artigo a respeito e é bem interessante, por incrível que pareça!”, conclui. Ela: “Nossa, parece ser interessante sim... explora conceitos sobre o homem atual, vem daí ‘identidade’?”. “É. Li o artigo: ‘a questão do ser em Quero Ser Jonh Malkovich’. Daí o autor expõe alguns conceitos que caracterizam o homem contemporâneo... Você já assistiu esse filme? é de 2.000, acho”. “Não, não vi não”, respondeu melancólica, com as sobrancelhas franzidas. “Pois é muito bom. Depois de ver o filme duas vezes, fuçando na internet encontrei esse artigo. O filme você tem que ver, mas o artigo expõe o homem de hoje como um colecionador de sensações, tendo uma identidade fragmentada sabe, sendo muitas vezes ao dia outras pessoas e sentido, literalmente, como elas, daí o colecionador. Todos nós criamos várias personas, e atuamos também. Um exemplo disso é o escritor: ele vive as situações que a personagem vive, é a única forma de criar, ele sente o que ela sente. Pesquisas em neuro-ciência demonstram que viver algo, ou se imaginar vivendo algo, despertam as mesmas áreas do cérebro e causam as mesmas sensações físicas, sentimentos, é atuar. Para o cérebro, não há diferença entre o que os sentidos captam e a imaginação” “Nossa, que viagem...”, ela respondeu, meio atordoada, e continuou: “é mesmo, não posso dizer que sou a mesma pessoa aqui na faculdade, e na minha cidade, quando vou ver meus pais, meus amigos...”. “Então, quanto em mais círculos sociais você se associa, parece que é maior o número de ‘você’ que se tem de criar. O autor associa isso ao fato de vivermos em constante processo de adaptação conforme mudamos de ambientes, sempre nos reinventado. Ser você mesmo virou meio démodé hoje em dia!”. Disse essa ultima frase em tom meio irônico, e dei uma risada discreta. Ela também sorriu discretamente, e concordou. Eu já estava farto desse assunto, resolvi por fim, antes que essa minha máscara caísse. “E daí vai toda uma viagem. Vê o filme, lê o artigo. Não sei se faz bem saber de certas coisas, às vezes é mais seguro escolher uma mentira e acreditar nela. Vestir sua máscara de manhã, achando essa sua personalidade e pronto. Se numa dessa de querer ficar formulando conceito sobre tudo e deduzir logicamente você chegar à conclusão de que isso tudo é imenso dum teatro, ou jogo de xadrez no qual se é uma peça apenas, programada para ter sensações, interagir e se reproduzir... você não terá outra solução senão uma super-dosagem de Prosac!” . Ela apenas respondeu com um ‘credo’, mas afirmou ter vontade de conhecer mais sobre o tema. Anotou o nome do filme e o nome do artigo. Me perguntou qual filme mais a indicaria. Falei-lhe mais dois filmes, acrescentando que um deles seria difícil de se conseguir, por ser uma produção japonesa.

Bom, o importante que cumpri meu intuito que era impressioná-la. Tem lá suas vantagens ter um pouco de cultura. Cada um cultiva suas habilidades. Tem uma teoria econômica, formulada por Ricardo, conhecida como ‘vantagens comparativas’. Nesse clássico raciocínio sobre comercio internacional entre países, ele conclui ser a melhor estratégia para cada um especializar-se na produção e exportação em que tem maior eficiência, importando os demais, mesmo que o preço desse bem seja menor que os a serem importados, pois, quando fizerem o comercio e trocarem seus produtos, os dois países terão mais dos dois bens e assim estarão em situação melhor que com suas economias fechadas. A mesma lógica se aplica a nós, você tem que se especializar naquilo que desenvolve bem. Se os fortões por ai pegam mulher mostrando-se fortões, porque não posso tentar as minhas mostrando-me intelectual? Mesmo que minha “produção” seja menor do que a dos fortões, é melhor do que se eu tentasse seduzi-la com atrativos físicos e lábia?
Pensei em chamá-la para sair outro dia, posto que hoje já poderia dormir com sensação de trabalho cumprido; mas resolvi citar que ia numa festa com uns amigos, para ver se ela topava. Ela sorriu. Saber que ela tomava cerveja me encorajou. Prometi não falar em pós-modernidade na festa, e que meus amigos eram um pouco mais normais. Acrescentei que teríamos carona para ir e para voltar. Ela achou que seria legal uma festinha, sorriu, afinal era quinta-feira. Trocamos números de telefone, e nos despedimos com um beijo-falso no rosto e abracei-a rapidamente, embora permanecesse sentada na cadeira e inclinar meu corpo sobre a mesinha tivesse atrapalhado um pouco.

Sai da sala de informática, o papo se estendera um tanto mais que o previsto e tinha aula agora. Acho que ela não reparou que eu tinha esquecido de usar o computador, a imaginava mais inteligente, espirituosa. Se bem que sua demonstração de interesse no inicio da conversa perguntando-me porque perguntei se ela fazia psicologia foi o que me deu ânimo para prosseguir o dialogo, que foi mais um monólogo, se se analisar bem.

Faz música, ainda bem que já tenho aquelas músicas instrumentais lá no meu computador. Agora tenho que pesquisar um mais sobre a vida e as propostas desse tal Paul Muriati, e procurar outros maestros experimentais da mesma linha. Também tenho que procurar uma festa e ver se a galera quer ir, ver se as meninas querem ir, para quebrar o gelo um pouco, pelo menos até a cerveja desempenhar seu papel.

Acho que vou desistir da aula.

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Outros contos podem ser lidos (e comentados) em:
www.banheiro-misto.blogspot.com
marcador: W. Fernandes

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6 comentários:

  1. conto de extrema ultilidade : quem seguir a risca as etapas, conseguirá que a cerveja cumpra seu papel.

    * John Malkovich ? Adaptação, ja viu ? Charlie Kaufman é o que há....

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  2. Quer dizer que uma mulher que sai para beber com amigos em um bar freqüentado por defuntos telespectadores não tem preocupações ambiciosas e são humildes? Acho que me encaixo nisso... rs
    Não me causou tédio, pelo contrário, eu ri no final quando o personagem diz que precisa arrumar uma festinha e ver se a galera quer ir. Muito bom hein, você poderia me mandar por email a continuação né??? hehehehe
    Bjo querido!

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  3. Realmente,existi talentos perdidos nos Blogs da vida.
    adorei o texto,depois q li fui correndo editar o meu.
    hihihihihihihi...
    e uma perguntinha,a cerveja surgiu efeito?-rs!rs!-
    brincadeira.
    paz e luz

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  4. Gostei do texto, vc escreve de maneira que não é tedioso ler.
    Beijinhos de Rozangela
    Se quiser retribuir a visita, fique à vontade...
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  5. o que eu estava procurando, obrigado

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